Mulher, coluna da Igreja e da sociedade

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14/03/2018 - 10:00

“ A mulher, coluna na edificação da Igreja e da sociedade na América Latina” – este foi o tema que o Papa Francisco escolheu para a assembleia plenária da Pontifícia Comissão para a América Latina, realizada de 6 a 9 de março no Vaticano. Além dos membros da Comissão (30), quase todos presentes, participaram também dez mulheres especialistas em diversas temáticas relativas à mulher na América Latina, especialmente convidadas. 

As reflexões abordaram um amplo espectro de questões, como o protagonismo feminino ao logo da história dos diversos países do Continente, a mulher e o trabalho, a política, a educação, a solidariedade social e o zelo pelo ambiente; a mulher e a família, o cuidado da vida, sua atuação na evangelização e na edificação da Igreja. Foram também feitas breves considerações teológicas sobre a mulher à luz do mistério da Trindade Santa e da presença de Maria na vida da Igreja, especialmente na América Latina. 

O Papa Francisco, já em diversas ocasiões, expressou reconhecimento e apreço pela contribuição da mulher à sociedade e à Igreja, falando também que a participação da mulher devia ser mais reconhecida e valorizada. Na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (2013), Francisco escreveu: “constato, com alegria, como muitas mulheres participam de responsabilidades pastorais, junto com os sacerdotes; contribuem no acompanhamento de pessoas, de famílias ou de grupos e oferecem novas contribuições à reflexão teológica. Contudo, é necessário ampliar os espaços para uma presença feminina mais incisiva na Igreja”. No mesmo documento, o Papa fala da indispensável participação do “gênio feminino” em todas as expressões da vida social, no mundo do trabalho e em todos os âmbitos da tomada de decisões importantes na Igreja e nas estruturas sociais (cf. 103). 

A participação da mulher sempre teve importância na vida e na missão da Igreja, mesmo quando isso não foi reconhecido de maneira suficiente, nem proclamado de modo tão explícito como hoje. A verdade é que o testemunho da fé e sua transmissão às novas gerações, aspectos essenciais da missão da Igreja, sempre foram assegurados mais pela mulher do que pelo varão. E não é diferente em nossos dias, bastando observar quem mais se encarrega do cultivo da fé em família e da primeira iniciação dos filhos à vida cristã, da sua introdução na comunidade eclesial, da catequese, dos muitos serviços pastorais de caridade e solidariedade, dos serviços missionários nas suas mais diversas expressões. Geralmente são as mulheres que vão à frente!

Seria equivocado falar da participação da mulher na vida da Igreja em chave de disputa do poder eclesiástico. Também da parte do varão seria absolutamente equivocada a busca do poder e do prestígio no exercício de missões na Igreja, pois Jesus deixou bem claro que “o maior deve ser aquele que mais serve” (cf. Lc 22, 26-27) e Ele mesmo deu a lição aos apóstolos na última ceia, após ter lhes lavado os pés: “compreendeis o que vos fiz, eu que sou vosso mestre e senhor? Dei-vos o exemplo para que façais a mesma coisa” (cf. Jo 13, 12-14). Quem desempenha a autoridade na Igreja deve fazê-lo sempre como um serviço aos demais e em função do bem da Igreja e, jamais, como busca de poder, prestígio e afirmação de vaidades pessoais.

Não se trata de nenhuma concessão da Igreja às mulheres, nem de postura politicamente correta, conformada aos humores culturais do nosso tempo... Antes de tudo, mulher e homem participam do mesmo dom recebido no Batismo: pela graça da fé em Cristo, ambos são revestidos da mesma dignidade de filhos e filhas amados de Deus; ambos são inseridos na Igreja, família de Deus, e participam dos bens do Evangelho e da herança ligada às promessas de Deus. Ambos, enfim, receberam o mesmo chamado a serem testemunhas do reino de Deus e participam, cada um com seu dom, da missão comum de toda a Igreja. 

Isso convida a levar avante a reflexão sobre a valorização maior da contribuição feminina na vida da Igreja e da sociedade, como fez a Pontifícia Comissão da América Latina. As mulheres representam mais que a metade dos católicos e, além do que já fazem, elas têm muito mais a contribuir para a vida e a missão da Igreja. Mais do que nunca, essa reflexão se faz oportuna em tempos de “nova evangelização”. Não poderia ser menosprezada nem relegada a um plano secundário o exemplo e a generosidade daquelas que foram fiéis a Jesus, até junto da cruz, e a quem Ele confiou o primeiro anúncio da sua ressurreição. A mulher está no coração da comunidade eclesial e esta conta com sua fiel e importante participação, com o dom que lhe é próprio.

Cardeal Odilo Pedro Sherer
Arcebispo Metropolitano de São Paulo
Publicado em O SÃO PAULO, na edição de 14/03/2018