Páscoa: a violência não tem a última palavra

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04/04/2018 - 10:15

Feliz e santa Páscoa a todos os leitores do jornal O SÃO PAULO! Durante a Oitava da Páscoa, como se fosse num único e prolongado dia de festa, continuamos a desejar “feliz Páscoa” e a proclamar: verdadeiramente, o Senhor ressuscitou! Jesus Cristo ressuscitou e está vivo entre nós! 

Quem pediu a sua morte, pensou ter vencido e tirado de circulação o Mestre incômodo, Jesus de Nazaré. Crucificado, bem morto e sepultado, Ele era página virada e bastava apenas esperar um pouco para tudo voltar a ficar como antes. Até os seus discípulos, embora lamentassem o ocorrido com Jesus, já estavam conformados e voltavam às suas aldeias de origem e às suas antigas ocupações. 

Mas um fato novo, no terceiro dia depois da morte de Jesus na cruz, surpreendeu a todos! Seu túmulo estava vazio e corria a conversa que Ele estava vivo! Logo se procuraram explicações, inclusive sugerindo que seus discípulos poderiam ter levado o corpo dele durante a noite, embora o túmulo estivesse bem fechado e guardado por soldados. Mas essa suspeita logo se dissipou, quando diversas pessoas começaram a afirmar que tinham visto Jesus, em pessoa, após a sua morte. E falavam de encontros surpreendentes com Ele. Assustados, os apóstolos não conseguiam acreditar naquilo que seus próprios olhos viam e seus ouvidos ouviam: o próprio Jesus também foi ao encontro deles, embora estivessem bem fechadas as portas do lugar onde eles se achavam.

E não houve mais quem pudesse tirar do mundo esta verdade: a ressurreição de Jesus, depois de ter sido morto na cruz e sepultado. E não se tratava apenas de um morto que voltava a viver como antes, o que já seria inexplicável. Com Jesus é diferente: está vivo e se apresenta glorificado às pessoas, com aspecto divino. Espaço e tempo já não lhe oferecem mais barreiras. É Ele mesmo, e os apóstolos, ainda incrédulos, o reconhecem: é Ele mesmo! A voz é dele, as palavras são dele e é seu o aspecto humano conhecido antes, mas agora está transfigurado! Não havia dúvidas, não estavam tendo alucinações, nem visões de um fantasma: era o mesmo Jesus que eles haviam conhecido na aldeias e estradas da Galileia, da Samaria e da Judeia. 

Os apóstolos passaram a compreender melhor suas palavras e tudo o que Jesus havia feito antes de sua paixão e morte; e, então, começaram a proclamar sem medo, não fazendo caso das torturas e ameaças de prisão: Deus estava com Jesus desde o início, quando conheceram o Mestre. Ele é o Filho de Deus, enviado ao mundo para salvá-lo de seus pecados e para abrir a todos as portas da misericórdia e do reino de Deus. Tudo aquilo que Ele havia anunciado era verdade! Quem nele crer, também participa de sua vida e terá salvação plena. 

A celebração da Páscoa nos traz tantas lições! Jesus foi vítima de violência inaudita: traição e abandono dos amigos, acusações falsas, calúnias, condenação à morte humilhante de cruz, apesar de inocente, tortura severíssima, desprezo, humilhação, dor indescritível, condenado como um malfeitor, sendo que Ele só havia feito o bem, insultado até o instante extremo de sua vida. Quem o eliminou pensou ter resolvido um problema, mas não foi assim. A violência deixa mal quem a pratica. Os grandes promotores de violências privadas, públicas ou políticas têm fama de herói ou de vilão?!

Na Páscoa deste ano, após termos realizado a Campanha da Fraternidade sobre a superação da violência mediante a fraternidade – “vós sois todos irmãos” –, podemos afirmar: a violência não tem a última palavra e quem faz recurso a ela para resolver seus problemas ou para afirmar-se sobre os outros por qualquer motivo faz a escolha errada: os violentos podem produzir muita dor e até morte, mas eles não terão a última palavra e a vitória obtida na base da violência deixa mal a quem a pratica. É como Maria profetiza: Deus “derruba do trono os poderosos e eleva os humildes”... 

A ressurreição de Jesus deixa claro de qual lado Deus está: não é do lado dos violentos e opressores dos humildes e inocentes. Já nas suas primeiras pregações, depois de Pentecostes, São Pedro proclama: Deus Pai não abandonou na morte o seu Filho, o justo e santo Jesus, mas o ressuscitou ao terceiro dia (cf. At 2, 22-24). Deus também não abandona quem é vítima inocente da violência, mas o socorre e resgata. Os violentos não têm a última palavra, nem consegue a violência fazer justiça. Deus não está do lado dos violentos.
 

Cardeal Odilo Pedro Sherer
Arcebispo Metropolitano de São Paulo
Publicado em O SÃO PAULO, na edição de 04/04/2018