Paulo e seus companheiros: os grupos de sínodo

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31/01/2018 - 10:00

Ao lermos os Atos dos Apóstolos e as Cartas Paulinas, salta aos olhos um fato bem interessante: São Paulo foi um grande missionário e evangelizador, dedicou-se à missão com incrível coragem e generosidade e realizou em pouco tempo uma obra que marcou para sempre os rumos da Igreja de Cristo. Mas ele não estava sozinho, nem atuou sozinho. Com ele, esteve em ação uma grande “equipe missionária”, e ele soube chamar e preparar companheiros para a missão. 

Antes, porém, após seu encontro surpreendente com Cristo às portas de Damasco, ele próprio se deixou instruir no Evangelho por Ananias e procurou Pedro e outros apóstolos para confrontar a sua pregação com a deles, que foram as testemunhas oculares de Jesus. Não foi um “iluminado” solitário, achando-se o dono da verdade sozinho, mas sabia que também ele era servo de Jesus Cristo e devia ser fiel ao Evangelho e àquilo que lhe fora anunciado: “eu vos transmiti, em primeiro lugar, aquilo que eu mesmo recebi...” (1 Cor 15,3). 

Paulo precisou de Barnabé, “homem bom e sábio”, para ser introduzido na comunidade dos cristãos de Jerusalém e apresentado aos apóstolos. O próprio Barnabé foi seu companheiro nas primeiras missões na Ásia Menor. E assim, também Marcos e Lucas, autores de dois relatos do Evangelho. Mas foram muitos seus companheiros e colaboradores, como Timóteo, Tito e Silas, o casal Áquila e Prisca, Febe, Epêneto, Andrônico e Júnias, Lúcio, Jasão, Sosípatro, Tércio, Gaio, Erasto, Quarto e um círculo grande de amigos e colaboradores, mencionados e saudados no final da Carta aos Romanos (Rm 16,1-24), como faz em quase todas as outras cartas. 

Paulo, decididamente, não foi um pregador solitário e personalista, mas cuidou de estar em comunhão e edificar a comunhão da Igreja; soube trabalhar em equipe e preparar pessoas para a obra de evangelização e para a animação das comunidades da Igreja, que deram, depois, continuidade à obra evangelizadora.  Paulo faz questão de dizer que não é a ele a quem as pessoas devem se ligar e seguir, mas a Jesus Cristo. O que importa é que o Evangelho seja anunciado e acolhido com fé. 

A Arquidiocese de São Paulo, que se alegra por ter o grande Apóstolo como seu padroeiro e intercessor junto de Deus, está em processo de sínodo e, nesta circunstância, vale a pena olhar para São Paulo e aprender dele novamente algumas diretrizes fundamentais para a vida da Igreja. Na Igreja, não há lugar para pregadores autônomos e desvinculados da comunhão concreta com a Igreja. Como Paulo, também nós precisamos estar em comunhão com a fé e a vida da Igreja, colocandonos com renovada docilidade à escuta e discernimento da Palavra de Deus. 

Nosso sínodo arquidiocesano deverá ser um contínuo exercício de escuta da voz de Deus, a mesma que interpelou Paulo no caminho de Damasco, acolhendo aquilo que o Espírito diz à Igreja de São Paulo (cf. Ap. 2).  Por outro lado, precisamos ouvir com renovada atenção o que a Igreja fala. A comunhão na Igreja é garantia de autenticidade da nossa pregação e fonte de dinamismo na vida e ação eclesial. O sínodo é um caminho de comunhão, na sintonia com o Magistério da Igreja que se faz presente na palavra do Papa e dos Bispos. 

Mas de São Paulo aprendemos que a vida e a missão das comunidades da Igreja dependem da participação de muitos “companheiros de missão”. Não fazem todos a mesma coisa, mas a participação responsável de cada membro enriquece e dá vitalidade à comunidade eclesial inteira. Nossas comunidades paroquiais precisam de muita comunhão e participação de todos os seus paroquianos nos conselhos, pastorais, grupos diversos, associações de fiéis, movimentos e novas comunidades. 

O sínodo arquidiocesano, em 2018, envolverá as paróquias e suas múltiplas comunidades. É a hora de os amigos e companheiros de missão mostrarem sua participação e interesse pela vida e a missão da Igreja, presente em cada comunidade. A partir do final de fevereiro, os grupos se reunirão, a cada mês, para refletir sobre um tema proposto e para apresentar às paróquias as suas contribuições para o caminho do sínodo. É desejável que em cada paróquia haja muitos grupos de “companheiros de missão”. 

Essa reflexão tem significado especial dentro do Ano do Laicato no Brasil. As comunidades da Igreja são formadas por leigos em sua maioria. O clero está a serviço desse povo de Deus, povo de batizados, em que todos são participantes da mesma graça da fé e da missão de viver, testemunhar e transmitir o Evangelho de Cristo e o patrimônio da fé da Igreja. Que o sínodo ajude a despertar uma nova participação eclesial dos leigos, para a renovação da vida e da missão da Igreja em cada uma das comunidades.

São Paulo formava, orientava e incentivava seus amigos a viverem com firmeza e perseverança a fé e a serem evangelizadores, cada um na sua condição. Aos diáconos, presbíteros (“anciãos”) e bispos (“epíscopos”), ele orientava e instruía na missão que lhes era própria. Que nossa Igreja, em São Paulo, possa ter, mais e mais, esse mesmo jeito paulino.

 

Cardeal Odilo Pedro Sherer
Arcebispo Metropolitano de São Paulo
Publicado em O SÃO PAULO, na edição de 31/01/2018