Sínodo arquidiocesano: Conversão missionária

05/07/2017 - 12:45

No domingo, 2 de julho, durante a Missa na Catedral metropolitana, foi feito o envio missionário dos seminaristas de nossa Arquidiocese: oito diáconos irão, dois a dois, para um estágio missionário nas dioceses de Coroatá (MA), Marabá (PA), Castanhal (PA) e de Bom Jesus do Gurguéia (PI). Os demais seminaristas farão uma semana missionária em nossa cidade, em diversas paróquias, hospitais, casas de detenção e com a população que vive em situação de rua. Essa experiência missionária dos futuros sacerdotes já vem sendo realizada há vários anos e se revela muito provei- tosa para a sua formação. De fato, a Igreja pede que também os sacerdotes diocesanos tenham formação missionária e estejam profundamente imbuídos de zelo missionário. O serviço missionário não deve ficar reservado apenas para alguns sacerdotes e religiosos que partem para longes terras e para as frentes missionárias propriamente ditas.

Isso torna-se tanto mais urgente em nossos dias, consideradas as mudanças culturais e religiosas havidas, ou ainda em curso. Essas mudanças também já atingem a própria Igreja Católica. Quem ainda pode afirmar que todos os paroquianos, ou os habitantes da sua cidade, já foram evangelizados, bastando agora apenas cultivar a fé e cuidar de colher os frutos da vida cristã? Se, no passado, lamentávamos que havia relativamente poucos católicos praticantes assíduos e a imensa maioria era apenas “de católicos de nome”, que se ligavam pouco ou nada à Igreja, é forçoso constatar hoje que os praticantes continuam relativamente poucos e os católicos apenas de nome estão mesmo abandonando a Igreja e a fé católica.

Talvez a preocupação missionária, tempos atrás, poderia estar voltada apenas a povos distantes, em regiões pouco ou nada cristãs. Hoje, porém, esses “povos distantes” e não evangelizados estão cada vez mais perto de nós, em nossa cidade, em nossas paróquias e até em nossas casas e famílias. Constatamos, infelizmente, um acentuado distancia- mento e mesmo afastamento da Igreja Católica de muitos dos que foram batizados como católicos; e cresce o número dos que nascem em famílias católicas e nem mais são batizados e introduzidos na vida da Igreja Católica. Nossas paróquias e comunidades e nossa Arquidiocese de São Paulo tornaram-se terras de missão!

Nosso primeiro impulso poderia ser o de procurar os culpados e responsáveis por essa situação. No entanto, quem pretenderia apontar o dedo contra alguém? Quem poderia dizer que está totalmente imune a essas mudanças preocupantes, cujas causas são muitas e complexas? O certo é que a Igreja mesma, há muitos anos, desde o Concílio Vaticano II, as assembleias do Sínodo dos Bispos e as muitas instâncias de corresponsabilidade pela sua vida e missão, como as Conferências Episcopais, vem constatando que a evangelização está sendo insuficiente e precisa ser renovada através de um renovado ardor missionário. Talvez ficamos cuidando apenas das ovelhas já recolhidas no redil do Bom Pastor, não mais nos preocupando com aquelas que estão dispersas e distantes. Talvez apostamos muito na colheita de frutos, mas descuidamos do bom cultivo da própria planta... E o cultivo da vida e da missão da Igreja se dá pela evangelização atenta e constante.

O sínodo arquidiocesano, que já anunciamos e estamos preparando, será uma ótima ocasião para que toda a arquidiocese de São Paulo tome consciência de como estão as coisas na realização da vida e da missão da Igreja aqui, nesta Metrópole, onde somos chamados a ser as testemunhas de Jesus Cristo e da Boa- Nova do Reino de Deus. Até que ponto estamos realizando, aqui, aquilo que é próprio da vida e da missão da Igreja Católica inteira? Todo o povo de Deus é chamado a participar dessa tomada de consciência eclesial e da busca da necessária conversão pastoral e missionária de nossa Igreja Particular. Conversão pessoal, comunitária e eclesial.

Dia 9 de junho, celebramos a festa de São José de Anchieta, que está entre os fundadores da Igreja em São Paulo. Dia 1º de julho, comemoramos a memória litúrgica da incansável Beata Assunta Marchetti. Dia 9 de julho, celebraremos o dia de Santa Paulina, inteiramente dedicada aos pobres. Foram santos missionários, que viveram em São Paulo e ajudaram a edificar esta Igreja com seu zelo e dedicação evangélica. Foram grandes testemunhas de Deus nesta Cidade. Seus exemplos e sua intercessão nos ajudem a sermos hoje os discípulos-missionários de Jesus Cristo, que eles foram no seu tempo.

Cardeal Odilo Pedro Scherer

Arcebispo metropolitano de São Paulo

Artigo publicado no jornal "O SÃO PAULO", edição de 058/07/2017