ABRIR O OUVIDO E SOLTAR A LINGUA - Raul Amorim

09/02/2018 - 08:30

Mc.7,31-37

No evangelho de Marcos, existe uma abertura crescente em direção a outros povos. Jesus está em território estrangeiro e alguém dessa região é libertado das amarras que lhe impedem de ouvir e falar...

Mc.7,31: Saindo de novo do território de Tiro, Jesus seguiu em direção ao mar da Galileia, passando por Sidônia e atravessando a região da Decápole.

Tiro, Sidônia e Decápole eram historicamente áreas de não judeus. Decápole significa, literalmente, dez cidades.  Assim o evangelista leva os leitores e leitoras a abrir-se, aos poucos, para a realidade do mundo ao redor e a superar os preconceitos que impediam a convivência pacífica entre os povos.

A missão de Jesus vai além das fronteiras. A Boa Nova deve ser levada a todos.

Mc.7,32-33: Levaram a Jesus um surdo que falava com dificuldade. E pediram que impusesse a mão sobre ele. Jesus o levou para longe da multidão. Quando estavam sozinhos, colocou os dedos nos ouvidos dele. Depois cuspiu, e com a saliva tocou na língua dele.

Parece que a fama de Jesus tinha cruzado fronteiras pois o povo lhe pede para que impusesse as mãos para curá-lo. Mas Jesus foi muito além do pedido.  

A metodologia de Jesus em curar o homem é cheia de detalhes. Jesus colocou os dedos nos ouvidos do homem. Ele não tem medo de contaminar-se com a impureza de um pagão, pois ao curá-lo, toca-lhe os ouvidos e a língua. Não é um rito mágico, mas toca os pontos do corpo que precisam de cura, de mudança.

Uma pessoa surda que falava com dificuldade parece ser uma comparação com os primeiros cristãos, que antes de entrar na comunidade eram como que surdos e quase mudos, pois tinha dificuldades de entender (ouvir) a realidade e anunciar (falar) a Boa Nova de Jesus.  

Mc.7,34-35: E levantando os olhos para o céu suspirou e lhe disse: ”Efatá”, que quer dizer: “Abra-se”! No mesmo instante seus ouvidos foram abertos, e sua língua solta e ele falava perfeitamente.

O gesto de olhar para o céu pode nos mostrar que Jesus está orando. O que está para acontecer é obra de Deus através de Jesus. Depois vem uma ordem, um imperativo que demonstra poder, autoridade: Efatá. Acontece o que Jesus ordenou. A pessoa surda recebe o poder de ouvir e de falar.

Esse acontecimento faz lembrar do cântico do servo no livro do profeta Isaías: O Senhor Javé me deu língua de discípulo, para que eu saiba ajudar o desanimado com uma palavra de coragem. De manhã em manhã, ele faz meus ouvidos ficarem atentos, para que eu possa ouvir como discípulo. O Senhor Javé abriu-me o ouvido, e eu não fui rebelde nem recuei. Jesus quer que o povo abra o ouvido e solte a língua!

Mc.7,36-37: Jesus lhes proibiu de contar o que tinha acontecido. Mas quanto mais proibia, mais eles contavam. Estavam muito maravilhados e diziam: “Ele fez bem todas as coisas: faz os surdos ouvirem e os mudos falar”.

A ordem para que não dissessem a ninguém mostra que Jesus não precisa fazer propaganda de si a até nem queria que falassem muito dele. O importante não era a sua pessoa, mas que estava acontecendo: O tempo da nova criação.

Ele não queria publicidade. Não se trata apenas de humildade, mas faz parte da estratégia necessária das comunidades cristãs. Mais tarde os apóstolos entendem que Jesus não veio pedir aplausos. O milagre, a cura não é mágica, mas traz a mudança de todo jeito de viver.

A cura de um problema não vai mudar o todo, mas a cura de um mal desencadeia um processo de mudança para uma sociedade melhor.

P/Cebi (Centro Estudos Bíblicos) Raul de Amorim Pires> raul4ap@gmail.com