O túmulo está vazio, mas o sacrário não...

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08/06/2017 - 12:30

Antes da Paixão, o Senhor reuniu os seus discípulos e celebrou a ceia pascal com eles. Três dias depois, os discípulos foram ao túmulo, mas o corpo não estava lá. O que aconteceu, e como o corpo sumiu? Os judeus logo disseram que o corpo foi roubado, essa era a saída e a solução mais rápida e fácil, mas para a fé isso não serve.

A ressurreição é o ponto chave para compreender que em toda a sua pregação, Jesus falava e agia como filho de Deus, como o “servo sofredor”. O profeta Isaías, no capítulo 42, no primeiro versículo, diz assim: “Eis o meu servo que eu sustento, o meu eleito, em quem tenho prazer. Pus sobre ele o meu espírito, ele trará o julgamento às nações”. Mas, para chegar a uma resposta de fé, que passe da morte de cruz para a ressurreição, não basta apenas uma leitura dos profetas.

Durante a sua pregação, mais paixão e a morte estavam em estreita ligação com a vontade de Deus. Isso provocou o escândalo mesmo entre os discípulos. Mas se isso faz parte do projeto, no seu todo, a morte não pode ser o fim, porque as profecias falavam de vitória de Deus, e a cruz parece uma derrota. Quem sabe se a prova fosse escondida, isto é, o corpo, não se poderia melhorar a história?

O encontro entre o Ressuscitado e os discípulos é o ponto de confronto com as profecias e aquilo que foi anunciado por Jesus: o medo foi substituído pela alegria, e o desânimo foi vencido pela esperança. O túmulo vazio indica, mas é no encontro que a fé cristã se afirma.

O corpo do Ressuscitado não foi encontrado por Maria Madalena, assim celebramos com o Evangelho no domingo da ressurreição; mas guardou os sinais da paixão, foi a narrativa no segundo domingo da páscoa; no terceiro domingo, com os dois discípulos de Emaús, recordamos que a obra de Jesus estava já implícita na Lei e nos profetas, e foi reconhecida ao partir o pão; o quarto domingo pascal lembrava que o Ressuscitado é o “Bom Pastor”, que deu a vida por suas ovelhas; antes da celebração da ascensão, memória de quando Jesus Ressuscitado voltou para junto do Pai, até o dia da sua segunda vinda na glória, no quinto e sexto domingo pascal, a sequência do Evangelho apresentava Jesus e os discípulos na última ceia.

No Domingo de Pentecostes, apagamos o círio pascal, e isso nos remete para a presença sacramental de Cristo, que é obra do Espírito. O Paráclito impulsiona a Igreja fazendo com que cada sacramento seja ação de Cristo, e, particularmente, que a Eucaristia seja presença real do Senhor.  Assim, o túmulo realmente está vazio, mas em todos os sacrários de nossas comunidades temos a certeza da presença do Ressuscitado.

Dessa forma, a Eucaristia, que primeiro celebramos para alimentar a comunidade dos discípulos reunida, mas que também reservamos para levar aos doentes e para a adoração, nos impele para realizar a obra do Senhor. Podemos dizer que a Eucaristia, Pão da Vida, alimenta a “Igreja em saída”, que se compromete com as realidades do mundo, no serviço aos irmãos, principalmente aos mais pobres.

 

Dom Devair Araújo Da Fonseca

Bispo Auxiliar Da Arquidiocese na Região Brasilândia e Vigário Episcopal para a Pastoral da Comunicação

Artigo publicado no jornal O SÃO PAULO, em 07/06/2017