Uma dentadura perdida

24/01/2018 - 10:15

Certa vez, um amigo meu tomou o ônibus e, logo que se sentou, abriu um livro. Em seguida, ao levantar a vista, reparou que havia uma dentadura caída diante do passageiro ao lado, um senhor de idade. Pareceulhe algo incrível alguém perder a dentadura e não perceber. Meu amigo pensava consigo: “Essa dentadura não pode ser dele... porque, se fosse, teria sentido falta”. Assim, continuou a ler o seu livro. Mas sua consciência não o deixava em paz: “Deve ser complicado mandar fazer outra dentadura... Se for dele, ainda poderia recuperá-la”. Mas pensou que seria intrometer-se indevidamente na vida dos outros: “Se a dentadura for dele, vai, com certeza, aprender a lição, e garanto que nunca mais vai perdê-la”. Entretanto, em seguida, sentiu o apelo da solidariedade: “Quanto deve custar para fazer outra dentadura? Ademais, vai ficar bastante tempo só tomando sopa e mingau. Se fosse comigo, eu gostaria que me alertassem, para não perder algo de valor no ônibus”. Então, resolveu tomar a iniciativa: 

“Senhor, aquela dentadura caída ali é sua?” 

Mas o velho também era um pouco surdo, e o meu amigo teve que falar alto no ônibus. E assim, todo mundo começou a olhar para eles: 

“Essa dentadura é sua?”, repetiu em voz forte, todo vermelho de vergonha. 

“Ah! Sim, não havia reparado. Obrigado!”, disse, envolvendo a dentadura num lenço.

Meu amigo não teve outro remédio que enfrentar com audácia aquela situação. 

Se transpusermos essa cena a outros âmbitos, também surgirão situações parecidas: um colega de trabalho casado em notório envolvimento afetivo com outra funcionária da empresa, ou um estudante da mesma sala que anda experimentando drogas na saída das aulas. Não podemos dizer que são problemas deles, que não temos nada a ver com isso... Não podemos ser testemunhas omissas da ruína espiritual daqueles que Deus colocou ao nosso lado. Não cabe esquivar-nos, pois Deus espera de nós a iniciativa da caridade. 

Como estamos no início do Ano Nacional do Laicato, esse episódio serve para pensarmos na missão apostólica que todos recebemos no Batismo. 

A Igreja coloca muitas esperanças nos frutos deste Ano dedicado aos leigos, contando com o potencial da maioria dos membros do povo de Deus, como protagonistas da evangelização das realidades temporais: a família, a cultura, o mundo do trabalho, da educação etc. 

Com efeito, a Igreja somente poderá levar o seu anúncio de salvação e de felicidade a grande parte das atividades humanas por meio dos fiéis leigos. Nesses ambientes, a atuação do fiel leigo é insubstituível. 

O Santo Padre nos anima a aprofundar na missão do apostolado dos leigos em sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium : “Em virtude do Batismo recebido, cada membro do povo de Deus tornou-se discípulo missionário (120).” “...é cada um levar o Evangelho às pessoas com quem se encontra, tanto aos mais íntimos como aos desconhecidos (127).” Devemos ter “a disposição permanente de levar aos outros o amor de Jesus; e isto sucede espontaneamente em qualquer lugar: na rua, na praça, no trabalho, num caminho (idem).” Por meio de um “diálogo pessoal, no qual a outra pessoa se exprime e partilha as suas alegrias, as suas esperanças, as preocupações com os seus entes queridos e muitas coisas que enchem o coração (128)”. 

Neste Ano Nacional do Laicato, todos somos chamados a tomar iniciativa pessoal no âmbito da nossa atuação: com as pessoas com quem convivemos no trabalho, na família, em nosso círculo de amizades. Antes de mais nada, devemos rezar por essas pessoas, pedindo as luzes necessárias para crescerem na fé. Depois, por meio do diálogo, da amizade e da preocupação sincera sobre a sua situação, surge um clima de confiança, que favorece a reaproximação de Deus, a recuperação da fé e da vida da graça, pela prática da oração, da leitura da Sagrada Escritura e pela recepção dos sacramentos.
 

Dom Carlos Lema Garcia
Bispo Auxiliar da Arquidiocese e
Vigário Episcopal para a Educação e a Universivade