E se estivéssemos estado lá?!

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27/03/2018 - 09:45

Iniciamos a celebração da Páscoa deste ano com o rito da bênção dos ramos, recordando a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e a aclamação festiva do povo. Em seguida, durante a Missa, ouvimos o relato da Paixão de Cristo segundo São Marcos. Durante a Semana Santa, acompanharemos as celebrações da Igreja, fazendo a memória dos últimos dias de Jesus, antes de sua paixão, morte e ressurreição. 

Tudo poderia ser visto e acompanhado com curiosidade, devoção e até com indignação diante da injusta condenação de Jesus à morte e diante das atitudes violentas e corruptas de quem pediu a condenação e executou Jesus. Tudo poderia ser como um teatro religioso envolvente, que se repete todos os anos. Mas será mesmo essa a intenção da Igreja, ao nos convidar às celebrações da Páscoa? 

A liturgia da Semana Santa, com sua riqueza e profundidade, vai muito além de um teatro religioso, mesmo que ela também possua muitos aspectos cênicos e rituais. Estamos sempre no contexto da celebração feita na fé da Igreja, que faz o memorial dos eventos da nossa salvação e nos convida a aderir a esses eventos com fé pessoal e comunitária. Quando acompanhamos a procissão de ramos, temos a possibilidade de nos unir à multidão de hoje e de todos os tempos, que reconhece em Jesus o “filho de Davi” anunciado, o Filho de Deus Salvador. 

Quando ouvimos os relatos do Evangelho, que narram a última ceia, o lava-pés, as últimas recomendações de Jesus aos discípulos, podemos colocar-nos entre esses mesmos discípulos, pois os gestos, palavras e ações de Jesus valeram para aqueles discípulos e também valem para os de todos os tempos. Quando lemos e ouvimos o relato da Paixão de Jesus, com suas várias cenas e personagens, somos interpelados a nos posicionar: de qual lado estamos? Com qual personagem nos identificamos? Somos como os apóstolos que não puderam vigiar uma hora com Jesus e depois o abandonaram? Como Judas, que traiu Jesus e o entregou aos inimigos com um beijo falso? 

Somos daqueles que permanecem indiferentes, ou tentam tirar uma vantagem da situação, mesmo corrompendo a própria consciência, como as autoridades do templo e Pilatos? Estamos com as turbas que clamaram pela condenação do justo Jesus à morte? Somos como os soldados, que vão além de cumprir ordens e torturam Jesus, desprezando a sua dignidade até o extremo? Somos como o Cirineu, que ajudou Jesus a carregar a cruz? Como Verônica, que, compadecida, tentou aliviar os sofrimentos de Jesus? Como Maria e as outras santas mulheres, que permaneceram firmes ao lado dele, embora recebessem o mesmo desprezo reservado ao condenado? Ou como José de Arimatéia, que, apesar de tudo, teve a coragem de prestar a Jesus a homenagem de uma sepultura digna? 

As celebrações da Semana Santa e da Páscoa nos convidam a renovar nossa fé e nossa disposição de seguir Jesus no seu caminho de dor. Misticamente, lembrando dele e, bem concretamente, olhando para Ele, que continua a sofrer a paixão na pessoa dos irmãos. De que nos adiantariam nossas homenagens a Jesus, no passado, se não o reconhecêssemos e assistíssemos no presente, nos irmãos que sofrem e com os quais Ele se identifica? A paixão de Jesus nos envolve e questiona. 

No Domingo de Ramos, a Liturgia das Horas apresenta uma bela homilia de Santo André de Creta, bispo do século VIII, que dizia: “vinde, subamos ao monte das Oliveiras e corramos ao encontro de Cristo (...) que se encaminha voluntariamente para a sua santa paixão. Acompanhemos o Senhor e imitemos os que foram ao seu encontro. Não para nos estendermos pelo caminho, como se fôssemos ramos de oliveira ou tapetes de mantos, mas para nos prostrarmos aos seus pés com humildade e retidão de espírito, a fim de recebermos o Verbo de Deus que se aproxima de nós... Prostremo-nos aos pés do Cristo, revestidos de sua graça, revestidos dele mesmo. Aclamemos todos os dias, juntamente com as crianças, dizendo estas santas palavras: bendito o que vem em nome do Senhor!” 

As celebrações da Páscoa nos chamam à penitência, ao arrependimento, à conversão e a uma vida cristã autêntica, no seguimento de Jesus Cristo e na comunidade da Igreja. Tudo isso chega ao seu ponto maior na vigília pascal, quando fazemos a memória do nosso Batismo e a renovação da nossa fé pascal. A Páscoa terá sido bem celebrada se pudermos dizer com São Paulo: “se participamos dos sofrimentos de Cristo, participaremos também de sua ressurreição” (cf.  Rm 6,8).
 

Cardeal Odilo Pedro Sherer
Arcebispo Metropolitano de São Paulo
Publicado em O SÃO PAULO, na edição de 27/03/2018